Um pé de maracujá-do-mato não é famoso pela sombra, mesmo assim um banco de madeira foi montado debaixo de sua copa. Sentado, encarando o mundo estava um senhor míudo, acaboclado, de chapéu coco e bigodinho curto quase chapliniano. Quem olha de longe presume o quão simples é e tem certeza do que faz ali:
- Esse velho fica aí o dia todo, reclamando do atraso da chuva e falando da vida dos outros...
- É, fica aí dizendo que na sua época tudo era melhor e queoje tudo é um inferno, blá, blá, blá e toma-lhe cachaça...
Quem o escuta, de perto, percebe o quão turvo é o pré-julgamento. Seu Florindo apenas observa com orgulho o seu reino. Chegou ali já tarde, nos seus cinquenta e poucos anos (trinta antes dessa descrição), depois de ter os dedos feridos e a cara exposta ao sol e à exploração dos patrões coronéis, se assumiu sem-terra e enfrentou a luta por um pedaço de chão. Observa agora onde essa via crucis lhe levou. Mostra sorridente o que conseguiu pros filhos, demarca o que é dele, ou que ao menos dizem que é. A casa menor da redondeza o abriga com a 'véa', o bar quem cuida é o seu menino mais velho, a casa de trás comporta o mais novo com inumeráveis netos e bisnetos, além dos outros descendentes que devem sua moradia a ele. Pronto, Seu Florindo já fez a sua parte, os filhos retribuem trabalhando enquanto ele se esbalda em seu trono com cheiro de maracujá.
Por Rafael Flores
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